Tenho lido uns contos e romances africanos. Dos de língua portuguesa, Mia Couto (moçambicano) e José Luandino Vieira (angolano). São textos surpreendentes. Em "Estórias abensonhadas", do Mia Couto (este moço à esquerda), há contos muito bonitos, coalhados de neologismos como o do título. Só para dar um gostinho, vejam como começa "O poente da bandeira":"Aurorava. O sol dava as cinco. As sombras, neblinubladas, iam espertando na ensonação geral. No topo das árvores, frutificavam os pássaros. Toda madrugada confirma: nada, neste mundo, acontece num súbito. A claridade já muito espontava, como lagarta luzinhenta roendo o miolo da escuridão. As criaturas se vão recortando sob o fundo da inexistência. Neste tempo uterino o mundo é interino. O céu se vai azulando, permoeolhável. Abril: sim, deve ser demasiado abril. Agora, que a aurora já entrou neste escrito, entremos nós no assunto."
Literatura e história
É comum na literatura africana que os autores ambientem suas narrativas historicamente. Afinal, são obras produzidas em países multiétnicos e politicamente jovens, em busca de suportes históricos que legitimem um sentimento nacional - tarefa complexa, pois as fronteiras atuais jamais existiram antes da colonização européia. O historiador inglês Eric Hobsbawn popularizou o conceito de "construção da nação", feita por meio de referências históricas e culturais, alinhavadas num processo de "construção das tradições" nas quais os Estados-nação modernos embasam sua identidade enquanto "povos". O processo aconteceu no Ocidente a partir de meados do século XVIII. Estaríamos testemunhando, nessa pujança da literatura africana, uma espécie de "construção da nação" hobsbawniana em andamento?
O angolano Luandino (este senhor à esquerda) é particularmente interessante no aspecto histórico, pois ele começou a publicar em 1954, quase sempre com um estilo que hoje resgata percepções e ambientações de tempos idos de seu país - e não parou mais. Em casos assim, a literatura complementa a historiografia transmitindo percepções, o que a ciência histórica dificilmente consegue fazer.O período coberto por Luandino é o da formação da entidade política "Angola". O ano de 1954 está no fim da época da consolidação dos movimentos de emancipação das colônias francesas e britânicas - três anos depois, Gana tornava-se o primeiro daqueles países a obter a independência. A atividade de Luandino passou então pela grande frustração angolana do iníco dos anos 1960, quando as possessões portuguesas não conseguiram a emancipação, ao contrário de quase todo o resto da África. Atravessou a guerra contra os dominadores que se seguiu a partir de 1960. Testemunhou o abandono português de Angola em 1975, após a Revolução dos Cravos na metrópole, e a subsequente guerra civil sangrenta. Chegou ao fim da guerra em 2002 e segue pelo período de reconstrução adentro.
É a longa e tortuosa história da formação de um país contada sob o ângulo da literatura. Comecei lendo o primeiro livro, “A cidade e a infância”, de contos, e quero ver se continuo cronologicamente para acompanhar isso. Excitante possibilidade!
Em tempo: Este post é um desenvolvimento de um comentário que fiz para outro post da Raquel Cozer no seu blog, que fala da recente e súbito aumento da popularidade dos autores africanos lusófonos no Brasil - mas sem o fenômeno correspondente da literatura brasileira em Portugal e na África.
No comentário, eu citei também Chinua Achebe, nigeriano. Absolutamente fascinante. Qualquer dia falo dele por aqui.