Mostrando postagens com marcador Cinema. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cinema. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 3 de março de 2011

O ritual: para onde foi Anthony Hopkins?

Olha, já vou avisando que o filme "O ritual" me decepcionou um tanto. É verdade que não havia nada que indicasse um grande filme, mas fui pela presença de Sir Anthony Hopkins, um desses atores com capacidade de transformar uma película qualquer numa experiência memorável. No entanto, Hopkins não estava lá. Estava em corpo, mas não em espírito.

Quis imaginar depois que não havia muito espaço em seu papel para grandes arroubos de interpretação. Havia. Passagens súbitas de uma personalidade aparentemente equilibrada para a violência verbal e vice-versa, ou situações de tensão que devem ser transmitidas com linguagens não-verbais, são campos férteis para boas atuações. Não sei o que aconteceu. Talvez estivesse no lugar errado - um papel que exigia pantomimas emocionais e acessos repentinos de fúria. O talento de Hopkins é mais sutil.

O resultado foi que em alguns momentos aconteceu o inacreditável de o mestre correr um risco real de ser equiparado por um estreante no cinema, Colin O'Donoghue, que fez o personagem principal e que até então só tinha trabalhado para TV. Donoghue produziu pelo menos uma cena notável, um longo e expressivo olhar absolutamente fixo sobre duas pessoas que se sustentaria mesmo sem trilha sonora.

Sem Hopkins, o filme afundou na sua superficialidade e nos seus clichês. Em certo momento, revirei-me na cadeira e senti vontade de ver as horas. O pior é que há características demais em comum com "O exorcista", de 1973. Este último é uma obra-prima inesquecível extraordinariamente assustadora, da qual ninguém sai inteiro. Quem não a viu talvez possa apreciar melhor os recursos de "O ritual". Para quem viu, a estratégia do diretor Mikael Håfström foi suicida. Pareceu uma tentativa patética de copiar elementos de um filme de grande sucesso para ver se consegue algum. Não causa boa impressão.

Não tenho muito a falar sobre essa película, desculpem-me. Escrevi aqui porque o assisti e queria contar o que vi. Fica para a próxima.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Wall-E

A Terra é desabitada há séculos. Entulhos espalham-se por todos os lados. No meio do caos, uma última maquininha construída pelos humanos, que sobreviveu a esse tempo todo, continua diligente no que foi programada para fazer. Vai para lá e para cá, trabalhando sem parar.

É um robozinho simples, já desgastado, movido a energia solar. A expressividade de sua aparência e seus movimentos testemunha a competência dos animadores do filme "Wall-E" (pronuncia-se "Uólii"). Mesmo considerando o que o fundador das empresas Disney conseguiu fazer com um camundongo, o resultado que a sua associada Pixar obteve para o robozinho velho e sujo é surpreendente. E lograram uma textura bastante agradável para um cenário desértico de lixo e destruição.

Na primeira parte do desenho, o espectador é um voyeur observando a divertida atividade diária da maquininha. Onde ela dorme (energia solar não está disponivel o dia todo...), como começa seus trabalhos, o que faz com o que vai encontrando pelo caminho.

Até que, claro, encontra algo diferente. Mas eis que nesse universo ficcional as máquinas têm caprichos, interesses próprios e curiosidade - e conseguem com dificuldade pronunciar seus próprios nomes. E a curiosidade de Wall-E o faz distanciar-se completamente de sua diretriz primária.

Logo, entra em cena um novo personagem - outro robozinho, totalmente distinto, novíssimo e de design futurista. Vem então a segunda parte do filme, a da aventura. E, como toda boa aventura cinematográfica, regada a um romance. Ah, sim, aqui as máquinas são também capazes de se apaixonar! (Mas será que haverá correspondência...?)


Máquinas com olhinhos pidões

O que aconteceu com a Terra? Para onde foram todas as pessoas? Qual o papel das duas máquinas nisso? O espectador vai descobrindo na medida em que a trama corre. A história é boa - na primeira parte, o espectador é levado pela mão a explorar o curioso cenário ficcional dessa animação; agora, ele é um detetive, destrinchando aos poucos o mistério, reconstruindo a trama; no trecho final, vibrará com a aventura e a ação. Primeiro o lúdico, depois a inteligência, depois o entusiasmo.

E tudo permeado com a emoção carinhosa transmitida por um insólito romance entre máquinas. Mas o que atrai mesmo não é somente essa estrutura: as maquininhas, oh!, são muito expressivas! Esses olhinhos "pidões", esses movimentos quase humanos - mesmo que o robozinho mais pareça um caixote, um ovo ou um simples círculo dependurado no teto!

De brinde, uma homenagem ao antológico "E.T. - O Extraterrestre", de Steven Spielberg. Os espectadores ao redor dos seus 40 anos hão de se lembrar do mar de emoção que foi essa película inesquecível para a criançada. E vão notar facilmente a semelhança entre Wall-E e o querido e enrugado alienígena. Não é apenas uma apropriação pura e simples, pois em certos momentos, a citação é obvia demais, tanto na imagem quanto nos movimentos da cabeça e no jeito de falar.

Comecei a ver esse filme quando zapeava na TV a cabo e cliquei no canal segundos antes de ele começar. Vi até o fim. Coisa rara quando zapeio. Animaçãozinha encantadora.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Cisne Negro

Saí chocado do filme "Cisne Negro". Nunca antes uma película de cinema havia me causado tal efeito. Passei rapidamente numa livraria depois; ao sair, ainda estava arfando. Demorei para voltar daquele estranho universo paralelo ao qual fui catapultado.

Seguindo a dinâmica das grandes óperas e peças de dança, o filme começou tranquilo, pianissimo, mas foi crescendo, crescendo, envolvendo, envolvendo, até chegar num clímax fortissimo e definitivo, um grand finale inesquecível.

A metáfora tem múltiplas dimensões. A própria vida da personagem principal, a bailarina Nina Sayers, interpretada intensamente por Nathalie Portman, assemelha-se à inspiração da história, o balé "O lago dos cisnes", de Tchaikovsky. O crescendo do filme acompanha também a "libertação interior" da personagem. Inicialmente uma personalidade contida e obcecada com a técnica, vai libertando paulatinamente o seu "cisne negro" - o lado da paixão intensa, que vem das entranhas, que mantinha cuidadosamente oculto em seu interior.

É também uma contraposição entre a linha estritamente técnica de interpretação de obras de arte e a linha "visceral", que usa a técnica como instrumento para conseguir expressar a sensibilidade e alcançar a expressão mais profunda do eu do artista - e atingir sensibilidades igualmente profundas dentro do espectador.

Que, salta aos olhos, é a linha do diretor Darren Aronofsky e dos quatro roteiristas (é produção independente). Quem assiste nas cadeiras do cinema vai sendo envolvido até os ossos por uma articulação mestra entre doses crescentes de suspense e de mistura entre o real e o onírico, que acompanham a contínua "descida ao abismo" do lado negro da alma, e uma cuidadosa estratégia de identificação espectador-personagem. O efeito é explosivo, arrepiante.

Aliado a isso, grandes interpretações. A atuação radical de Nathalie Portman é distante de tudo o que tem feito ultimamente. Outras duas atrizes, Mila Kunis (Lily) e Barbara Hershey (a mãe de Nina), fazem com Nathalie uma envolvente "dança" de dominação, manipulação e libertação entre três personagens intensos. Wynona Ryder (Beth), que está surpreendente, completa o quarteto feminino; sua personagem aparece pouco, mas na quantidade justa para marcar todo o espaço da obra - talvez porque encarne um medo permanente de Nina, contra o qual ela luta o tempo todo, fazendo Beth estar simbolicamente presente e atuante na maior parte do filme. Em meio ao ambiente de ciumeira do meio artístico, o processo de transição de Nina é múltiplo: metaforizam-se mutuamente, como numa rede de metassignificados, o desabrochar sexual, o conflito com as amarras da mãe, o amadurecimento artístico - mas, principalmente, a luta cada vez mais desesperada contra si mesma.

Mas o resultado pleno jamais seria alcançado sem o modo genial como foi utilizada a trilha sonora de Tchaikovsky. Escritores e compositores russos do século XIX e início do XX - Dostoievsky, Tchaikovsky, Rachmaninoff - possuem uma carga de paixão em suas obras de uma intensidade difícil de se igualar. Acessar essa caixa de pandora é que é uma arte à parte. Certas obras de Tchaikovsky pertencem àquela classe que possui um potencial de efeito mágico que raramente é alcançado pelas execuções, seja no palco, seja em ambientações em filmes de cinema. São músicas carregadas de sentimento, mas que precisam de alguém que as faça "chegar lá". Quando isso acontece, o espectador entra em outra dimensão.

Demorei para voltar.