A CIA sabia da presença de dois membros da Al Qaeda em solo dos Estados Unidos desde 9 meses antes dos ataques de 11 de setembro de 2001 - porém, só avisou o governo poucas semanas antes dos atentados. Ninguém sabe por que ocultram a informação, a não ser os cerca de 60 funcionários da CIA que a compartilhavam.Quem disse isso foi Richard Clarke - que, na época, era o responsável pelo combate ao terrorismo no governo Bush - numa entrevista para o jornalista Jorge Pontual, no programa Milênio, da Globo News, ontem à noite. Clarke contou que, na época dos atentados, conversava praticamente todo dia com o chefe da CIA e este não lhe passou aquele fragmento de informação.
O entrevistador chegou a perguntar-lhe se aquilo não era um indício de que o governo dos EUA deliberadamente deixou as coisas acontecerem. Clarke respondeu que não acreditava nisso; sua hipótese era que a CIA queria ver se transformava os dois membros da Al Qaeda em agentes duplos. Porém, quando a informação chegou ao presidente Bush filho, ele a ignorou. Segundo Clarke, nas semanas antes dos atentados, os funcionários do governo sabiam que algo iria acontecer, só não sabiam quando, onde ou exatamente o quê.
O tema central do programa foi a guerra cibernética, assunto do último livro de Clarke (“Cyber War: The Next Threat to National Security and What to Do About It” - em tradução livre de Pontual: “Guerra Cibernética: a próxima ameaça à segurança nacional e o que fazer a respeito disso”). [P.S. - E que comentei em outro post] Mas suas declarações sobre o 11 de setembro mereceram comentários à parte inclusive no blog do programa Milênio. Ali, Jorge Pontual lembra outros trechos da entrevista. Clarke foi o único funcionário que pediu desculpas às famílias das vítimas do atentado. Disse que ficou surpreso pelo fato de, depois que fez a sua retratação, ninguém o imitou. Nem mesmo na autobiografia de George W. Bush, abarrotada de informações, existe qualquer confissão de que tenha errado em algum momento.
Clarke deixou o governo em 2003 por conflitos com o presidente sobre o modo como ele geria a sua "guerra ao terrorismo", incluindo na invasão do Iraque naquele ano. Depôs à comissão que investigou os atentados de 11/09 e em seguida foi perseguido por Bush, que tentou difamá-lo.
Lembrando que o grande "motivo" alardeado por Bush e pelo governo do Reino Unido para a invasão do Iraque em 2003 foi a "existência" de armas de destruição em massa - químicas, biológicas - em seu território. As armas não foram encontradas. Até hoje o governo dos EUA tenta desculpar-se alegando depoimentos falsos - que existiram; recentemente, o The Guardian publicou uma matéria em que o "principal" informante de Washington sobre as armas iraquianas, Rafid Ahmed Alwan al-Janabi ou "Curveball", confessou ter mentido.
Outra "razão" para a invasão foi o envolvimento do ditador iraquiano Saddam Hussein com os atentados de 11 de setembro. O que é um disparate, afirmou Clarke, que lembrou também que morreram mais estadunidenses nessa guerra que nos atentados (2996 nestes últimos e mais de 4 mil na guerra até hoje, sem falar nos cerca de 100 mil iraquianos mortos, a maioria inocentes - vide, p. ex., a página da ONG Iraqi Body Count).
Por que o Iraque foi invadido?
Até hoje se discute por que Bush teria atacado o Iraque em 2003. Minha impressão é que houve uma conjuminação de motivações. Seriam elas:
- Desviar a atenção pública da guerra mais diretamente ligada aos atentados de 11 de setembro, a do Afeganistão, que não só não resultou na prisão do principal acusado, Osama bin Laden, mas se aproximava de uma situação de atolamento.
- O Iraque era o dos três maiores produtores de petróleo do Oriente Médio, ao lado da Arábia Saudita e do Kuwait. É verdade, porém, que uma fração pequena do petróleo consumido pelos EUA vem do Oriente Médio (as maiores fontes são, atualmente, Canadá, México, Nigéria e Venezuela).
- O Iraque é o país que possui a maior concentração de água do Oriente Médio. Por ali passam os rios Tigre e Eufrates e entre eles há a fértil Mesopotâmia com seus terrenos pantanosos. E, naquela parte do mundo, água vale ouro. Quem controla o país controla os aquedutos que se espalham a partir dali para toda aquela região, ávida pelo preciso líquido.
- O Iraque possui fronteiras grandes com dois dos principais elementos do "eixo do mal" escolhidos por Bush: a Síria e o Irã (vide mapa no fim deste texto). Poderia servir, no futuro, como base para neutralizar ou mesmo atacar esses países.
- O Iraque proporcionaria uma ligação física direta entre a Europa, incluindo membros da OTAN como a Turquia, e o Golfo Pérsico (vide o mapa abaixo).
- Saddam Hussein era uma pedra no sapato de Bush. A guerra feita por seu pai em 1990, após a anexação do Kuwait pelo ditador, não o depôs; ao contrário, ele permaneceu no poder enquanto violava periodicamente a zona de exclusão aérea imposta pelos EUA e driblava os inspetores da ONU que buscavam armas de destruição em massa, o que levava a eventuais ataques e bombardeios estadunidenses. Ficou 13 anos assim.
- Alguns estudiosos, como Demétrio Magnoli, avaliam que, após os atentados de 11 de setembro, os EUA procuravam um "aliado incondicional" alternativo à Arábia Saudita, pois Osama bin Laden tinha ligações fortes com os wahhabitas, uma seita muçulmana radical muito presente naquele país e também estreitamente ligada ao governo do mesmo. A ideia era conquistar o Iraque e depois distanciar-se dos sauditas e seus wahhabitas malucos.
